sábado, 5 de novembro de 2022

Dieta para envelhecer bem e com saúde

 

Dieta para envelhecer bem e com saúde
por Jocelem Salgado
Quando falamos em nutrição de idosos no Brasil temos um cenário desanimador. Segundo dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN), estima-se que no nosso país existam cerca de 1,3 milhões de idosos com baixo peso, sendo que a desnutrição representa, atualmente, mais de 35% nos registros de mortes de idosos nas regiões metropolitanas.Alimentação equilibrada é fundamental para que as pessoas envelheçam bem, com boa capacidade de gerir sua própria vida de forma autônoma, com o mínimo de limitações físicas e mentais

Um estudo desenvolvido na Unicamp confirmou que os idosos não estão se alimentando como deveriam. A pesquisa, resultado da tese da Dra. Glaucia Maria Navarro de Abreu Ruga avaliou os hábitos alimentares de 94 pessoas com idade entre 55 e 83 anos. Os resultados mostraram que dois terços das pessoas não se alimentavam adequadamente e que havia um consumo insuficiente de cálcio, magnésio, zinco, vitamina B6 e ferro. A quantidade média de calorias por dia era de apenas 900, dieta digna de top model, quando o valor recomendado para essa faixa etária é cerca de 1.500 calorias diárias. O estudo mostrou também que o consumo de fibras era muito baixo, o que gerava queixas frequentes de problemas intestinais. A preferência dos idosos por alimentos industrializados prontos, mais fáceis de preparar, foi considerada a maior responsável pelas carências nutricionais.

Mais idosos

De acordo com dados do IBGE, estima-se que em 2050 o número de idosos no Brasil será igual ao número de jovens: as pessoas com mais de 60 anos, que hoje representam cerca de 5% da população, serão 18%, mesma porcentagem dos que terão entre zero e 14 anos. Em pouco mais de quatro décadas, o número de pessoas com 80 anos ou mais chegará a aproximadamente 13,7 milhões.

Esses números mostram que o país precisará investir em políticas públicas tanto para criar condições de oferecer atendimento médico adequado a essa população como para divulgar a importância dos hábitos saudáveis para a obtenção de uma qualidade de vida superior. Principalmente porque em outro espectro encontramos também idosos obesos, que ao contrário daqueles avaliados pelo estudo da Unicamp, exageram no consumo de calorias diárias, consomem grandes quantidade de gorduras e açúcares e não praticam nenhuma atividade física.

As consequências de todo esse desequilíbrio alimentar (falta ou excesso de nutrientes) tem causado um avanço assustador de doenças que debilitam e matam anualmente milhares de brasileiros. De acordo com o relatório “Preventing Chronic Disease : a vital investment” da Organização Mundial de Saúde, divulgado em outubro de 2005, doenças crônicas não transmissíveis como as cardiovasculares, diabetes, câncer, entre outras, são responsáveis por 72% de todas as mortes no Brasil. Isso equivale a 928 mil mortes/ano de um total de 1.289 milhões de mortes e representa um prejuízo anual de US$ 3 bilhões ao nosso país.

 

 

Viver melhor

Bons alimentos ajudam a envelhecer melhor. Por isso, é importante ter uma alimentação equilibrada e saudável desde criança para chegar em plena forma à maturidade. Contudo, modificações nos hábitos alimentares e a prática de exercícios físicos podem trazer também grandes benefícios mesmo para as pessoas que já chegaram à meia-idade e nunca tiveram um estilo de vida saudável. Sempre há tempo para tentar reverter a situação.

Veja algumas dicas para quem quer envelhecer bem e com saúde:

– Calorias: a partir dos 55 anos o metabolismo torna-se mais lento e com isso o risco de se perder massa magra (músculos) e ganhar gordura corporal é maior. A necessidade de calorias diminui para homens (cerca de 600 calorias/dia a menos) e mulheres (cerca de 300 calorias/dia a menos). Procure diminuir o consumo de alimentos energéticos e pouco nutritivos, como doces, refrigerantes, alimentos gordurosos, frituras, massas.

– Carboidratos: Não exagere, dê preferência aos carboidratos presentes em grãos integrais como trigo integral, aveia, centeio, e leguminosas como a soja e o feijão. O ideal é que os idosos consumam quatro porções diárias: pão integral no café da manhã e no lanche e arroz integral com feijão no almoço e na jantar, por exemplo.

– Proteínas: Você não pode deixar faltar proteínas em sua alimentação. Elas ajudam a manter a musculatura e reforçam o sistema imunológico. O ideal é consumir cerca de 0,8 a 1,0g de proteína por quilo de peso ao dia. Assim, uma pessoa que pesa 60 kg, deve consumir algo em torno de 60g de proteínas ao dia. Peixes, aves sem pele, carnes magras, laticínios desnatados, e leguminosas como feijão, soja, grão de bico, ervilhas e lentilhas são as melhores fontes de proteínas para as pessoas de meia idade. A clara do ovo pode ser consumida todos os dias, enquanto que a gema é indicada apenas 3 vezes por semana. No quesito proteínas, uma novidade fica por conta do colágeno hidrolisado, uma proteína que já está disponível no mercado e que promete repor parte do colágeno corporal perdido com o avançar da idade.

 Gorduras: Muito cuidado com elas – os idosos têm mais dificuldade que os jovens em se livrar delas. Em quantidades adequadas formam hormônios, enzimas, etc. Em excesso acumulam-se nos tecidos adiposos aumentando o peso, e o que é pior, facilitam a deposição do colesterol nas artérias, causando obstrução e aumentando o risco de infartos. Consuma com moderação gorduras saudáveis como aquelas presentes no azeite de oliva, castanhas, abacate e óleos de peixes marinhos, canola, milho e girassol.

 Vitaminas e minerais: Encontrados em todos os alimentos, mas em quantidades excepcionais nas hortaliças e frutas. A menos que haja alguma restrição médica, pode-se comer esses alimentos à vontade. Recomenda-se pelo menos quatro porções de verduras e legumes e três de frutas todos os dias, variando ao longo da semana de forma que vários tipos de vitaminas e minerais possam ser consumidos.

– Água: A necessidade de água aumenta com a idade, até porque os rins nem sempre funcionam tão bem. Tome de sete a oito copos por dia. Você ainda se beneficia com a melhora na digestão e evita prisão de ventre.

– Não fique sem comer, nem substitua refeições por chá com torradas ou sanduíches. O ideal é fazer cinco ou seis pequenas refeições equilibradas por dia.

– Cuidado com o sal. Com o passar da idade, existe uma menor percepção do sabor salgado, e isso pode fazer com que as pessoas utilizem mais sal na comida do que devem. Um perigo para quem tem pressão alta. A dica é caprichar nas ervas e condimentos naturais, que acentuam o sabor em vez de salgar demais.

– Não descuide das fibras na alimentação: a ausência delas colabora com a prisão de ventre, que é frequente nessa idade. Trocar o pão e o arroz brancos por suas versões integrais, ou fazer um belo prato de mamão com aveia no café da manhã, são jeitos fáceis de aumentar a quantidade de fibras na alimentação.

– Lembre-se: A alimentação equilibrada é fundamental para que as pessoas envelheçam bem, com boa capacidade de gerir sua própria vida de forma independente e autônoma, com o mínimo de limitações físicas e mentais.

A Aids na Terceira Idade na Perspectiva dos Idosos, Cuidadores e Profissionais de saúde

Para os Idosos da população em geral, as representações acerca da Aids na terceira idade são:

Ancoradas em aspectos fisiológicos e psico-afetivos (externos)

Prevenção é concebida como informação aos grupos de risco

Risco de Contrair é associado à libertinagem, coragem de ter contato sexual sem prevenção e uso de drogas.

Doença de jovem: a pessoa jovem tem a jovialidade (1) falta de cuidado, sobretudo a juventude (1) o adulto é mais aventureiro (5) a moçada quando encontra o rapaz primeira coisa que faz é se entregar a ele (1) é muito preocupante pra os adolescentes (10) o jovem é mais cheio de muitas fantasias (2) essa libertinagem que eles tem (1) é preciso alertar os jovens sobre o sexo (5)

Impossibilidade: que as pessoas idosas que saem aos encontros com outras pessoas acho que aquela pessoa é tão… tem tanta coragem (1) o idoso é mais precavido (2) O idoso por si já é um homem retraído (1) é muito difícil a gente achar na terceira idade (13) é tão difícil uma pessoa idosa ter relações sexuais completas (1) idoso não tem ligação com aidético, convivência, não tem sexo, nessa idade eu não quero nem saber (2)

Observa-se, portanto, uma subestimação do potencial da infecção nas pessoas idosas e, 11consequentemente, uma vulnerabilidade não percebida, o que constitui em um desafio para uma mudança de concepção da doença para os idosos, que enxergam a contaminação como algo de grande dimensão, mas distante da sua faixa etária por ser o sexo a maior causa de transmissão.

Para os Idosos Soropositivos a Aids é representada:

– A Aids é vivenciada com constrangimento e associada com a promiscuidade.

-O enfrentamento é dado pela religião.

– Risco é associado ao sangue, beijo e usuários de droga, prostituição

– A Aids é concebida como uma doença contagiosa e fatal, ainda associada às minorias, prevalecendo a crença de que as pessoas são responsáveis pela própria enfermidade.

“Eu me senti até abestalhado. Aí eu falei: “como é que diabos eu fui buscar essa doença, onde? mas que diabo foi que eu fiz pra merecer isso?!”… Já fazia 12 ou 13 anos que eu tive relação com mulher de fora, sabe. Eu estava com essa doença sem saber. Cheguei aqui e foi descoberto essa doença… Sabia nada, sabia nada que diabo era isso não” (Suj6);“Eu disse: não, eu não acredito. Eu não acredito porque eu não saio com ninguém.”

“Ave Maria, é muito difícil. Porque o povo rejeita, né. Rejeita porque fala assim: um homem daquela idade com Aids.” (Suj 13)

Na convivência com a Aids destacam-se os seguintes conteúdos: estigma e outras dificuldades decorrentes do contágio, referindo às questões de ordem particular e manifesto de desagrado frente às dificuldades materiais, sociais ou afetivas do dia-a-dia; incapacidade para o trabalho devido aos sintomas e sequelas de doenças atribuídas à Aids; dificuldades de reintegração social, na comunidade em geral e nos círculos mais íntimos e na família em particular; baixa auto-estima e a culpabilidade; conformismo diante da doença e da morte, decorrente da idade avançada, de crenças religiosas e da transferência do foco da preocupação com a morte para as questões mais concretas da sobrevivência.

Em relação aos Cuidadores Domésticos foi observado:

– Pouca participação da família na sobrevida do idoso soropositivo

– Curta rede de apoio social

– O medo do preconceito por parte dos entes queridos

– A religião assume o papel confortador, que, diferentemente do esperado, não é atribuído à família.

“…eu mesma assim pessoalmente num era pra ta cuidando dele não, porque ele é ex-marido meu. Nós somos separado há dez anos, mas ninguém quis cuidar, só eu mesmo assim…” (Sujeito 1).

Acho que depois de “véi” se pegar essa doença é pra morrer, porque existe muitos problemas, doença, né? (Suj. 4)

“É porque assim a família dele fica muito distante. E ele nem tem contato com outras pessoas porque tem gente que não gosta de fazer favor pra ninguém, só gosta de fazer favor por dinheiro, né isso? Enfim, a gente se dá muito bem…” (Suj. 3).

A difícil tarefa de encontrar a amostra revela um indício da pouca participação da família na sobrevida do idoso soropositivo corroborado pelos discursos dos próprios pacientes que acabam por levantar questões como a curta rede de apoio social, visto que muitos optam por não contar à família seu estado de soropositividade; o enfrentamento dos pacientes através da religião, sendo a “fé” e “Deus” termos frequentes nos discursos analisados; e finalmente o medo do preconceito por parte dos entes queridos. Tais resultados sugerem que a religião assume o papel confortador, que, diferentemente do esperado, não é atribuído à família.

No discurso dos Profissionais de Saúde destacou-se:

– Associação a temáticas negativas, como decepção, preconceito e dificuldades

– Via de infecção: procedimentos médicos, tais como transfusões de sangue, e práticas sexuais promíscuas.

– Solicitação do teste anti-HIV é solicitado somente mediante sintomatologia característica da doença

Aids: “Se os dias deles já estariam contados, imagina tendo AIDS” (Odontóloga 1, 24 anos). “Eu vejo como um terror (…) é uma decepção” (Médica, geriatra, 55 anos). “Eu vejo muito complicado” (Enfermeira 1, 65 anos).

Risco:“…promiscuidade, de mudança de parceiro, de infidelidade” (Médica, geriatra, 55 anos). “…através de alguma relação ilícita” (Odontóloga 4, 58 anos). “…procura na rua o que não tem dentro de casa” (Odontóloga 2, 51 anos). “(…) drogas é um negócio tão distante deles” (Fisioterapeuta 6, gerontólogo, 29 anos). “A maior probabilidade de o idoso se contaminar com a aids, seria meio de internamentos em hospitais, através de transfusões, porque ele não corre tanto risco como os jovens, que está exposto as drogas, a toda variedade de sexualidade que ele pratica, só isso mesmo” (Odontólogo 5, 57 anos).

Solicitação Exame: “Eu não solicito porque, não sei. Eu nunca solicitei. A não ser algumas vezes que ela desconfia de alguma coisa do companheiro e me pede para eu solicitar. Porque eu sou muito assim a favor do que o Ministério da Saúde preconiza né. Então ele nunca me orientou a solicitar na rotina” (Médica, geriatra, 55 anos).

Evidenciam-se nestes discursos, concepções associadas a estigmas e preconceitos, igualando o conhecimento científico ao senso comum, podendo interferir em suas práticas de atendimento.

Entre as representações dos Coordenadores dos Grupos de Convivência destacam-se:

– Aids:as mais jovens associam a Aids à necessidade de cuidado,enquanto as mais velhas ao sofrimento e grupo de risco.

– A prevenção é colocada como responsabilidade da Saúde Pública.

“…muitos idosos que estão agora indo em busca de amores…o número em homens é maior…” (Assistente Social, 53 anos) “o idoso que gosta de sair, procurar pra sair e satisfazer seus desejos não usam uma prevenção, não conhece a parceira e traz essa doença pra sua própria esposa”… (Psicóloga, 48 anos) “a maior vulnerabilidade é com relação ao parceiro…se confia plenamente, acredita que ele jamais vai pular a cerca…de repente pega e transmite para sua companheira”… (Professora, 38 anos)

“Eu não tenho bem assim aquele conhecimento como é que você pode, eu acho que o risco é no beijo, no assento, no toalete, no exame”… (Educadora física, 47 anos;“a falta de informação, o pior é isso”… (Professora aposentada, 67 anos). “é por transfusão de sangue…(Assistente social, 53 anos), “eu acho que é na intervenção cirúrgica e na transfusão de sangue”… (Professora aposentada, 72 anos),(“é através de alguma injeção sabe”…(Psicóloga, 49 anos)

Se por um lado, há satisfação no desenvolvimento de sua atividade, por outro lado, observam-se um distanciamento em relação à Aids, dificuldade de lidar com o assunto junto aos idosos e também no âmbito pessoal, chegando a negação da doença junto à população da terceira idade.

Estes resultados demonstram que os idosos que se deparam com a doença tendem ao isolamento, escondendo o diagnóstico da família, dos vizinhos, no ambiente de trabalho. Não dispõem de grupos de auto-ajuda ou ambulatórios especializados em lidar com a complexa situação de envelhecer com Aids. O medo da discriminação é tão grande que, muitas vezes, o preconceito brota de dentro para fora e os impede de dividir suas angústias. O diagnóstico tardio é uma das principais razões de morte precoce e as interações do coquetel com outros medicamentos já utilizados pelos idosos produzem reações indesejáveis. Com a imunidade enfraquecida, podem morrer em decorrência de qualquer resfriado banal.

Aumentando o Grau de Segurança no Ambiente da Pessoa Idosa

Juliana V. S Zinni Flávia Aparecida Pussi

VII Congresso Internacional da UNICASTELO 31 de Outubro de 2003

Profa Dra Kelly Rafael Ribeiro Coqueiro

 

34.1. MOBÍLIA

 

Obstruir passagem: arrumar os móveis de forma que os caminhos não fiquem obstruídos; evitar corredores atravancados ajuda a mobilidade de pessoas com visão periférica comprometida; Cadeiras, mesas instáveis precisam ser suficientemente estáveis para suportar o peso da pessoa apoiada sobre as bordas de mesa ou encosto e braços das cadeiras, pessoas com comprometimento de equilíbrio usam a mobília como apoio.

 

34.2. COZINHA

 

Gabinetes Prateleiras muito altas: manter os itens usados frequentemente ao nível da cintura; Instalar prateleiras e armários a uma altura acessível reduz o risco de cair por causa de tentar alcançar ou subir em escadas ou cadeiras instáveis.

Registro de gás botão difícil de ver, assinalar claramente as posições “ligado” e “desligado” nos botões.

Pernas de cadeira mau estado Evitar cadeiras com rodas; consertar pernas frouxas cadeiras resistentes e estáveis não escorregam durante a transferência.

Mesa Bambas, instáveis: Instalar mesa com pernas resistentes de boa altura; evitar mesa sobre tripés ou pedestais; Pessoas com comprometimento da marcha frequentemente usam a mesa como apoio.

 

 

34.3. BANHEIRO

 

Banheira com fundo escorregadio: Instalar faixas antiderrapantes ou capacho de borracha; usar chinelos para chuveiro ou cadeiras para banho, evita escorregar na banheira molhada.

Suporte de toalha e topo da pia instáveis para uso como suporte ao transferir do vaso sanitário, fixar grades de apoio em pinos na parede próximo ao vaso sanitário ajuda a transferência para os vaso sanitário e dele para outro local.

Assento sanitário muito baixo: Usar acento sanitário elevado ajuda a transferência para o vaso sanitário e para fora dele; Drogas rotuladas inadequadamente: Rotular todas as drogas de acordo com a necessidade de uso interno ou externo; manter uma lupa dentro ou próximo ao gabinete; Porta / Fechadura:  Evitar fechaduras nas portas do banheiro ou usar apenas as que podem ser abertas dos dois lados da porta, Permite o acesso de outras pessoas no caso de ocorrer uma queda.

 

34.4. ILUMINAÇÃO

 

Instalar iluminação adequada no topo e na base da escada; luzes noturnas ou faixas adesivas coloridas podem ser usadas para assinalar claramente os degraus Define a localização dos degraus, especialmente para pessoas com comprometimento de visão ou da percepçãoAspectos Clínicos da Demência Senil em Instituições Asilares

 Milton Luiz Gorzoni; Sueli Luciano Pires

 

Aspectos clínicos do dementado asilado

 

Infecções

 

Idosos asilados frequentemente são hospitalizados, favorecendo contato com flora bacteriana intra-hospitalar resistente a antibióticos. O ambiente confinado das instituições asilares facilita a disseminação desse tipo de bactérias a outros internados. Diante disso, deve-se colher culturas, com antibiograma, para melhor caracterização da flora bacteriana intra-asilar ou criar procedimentos semelhantes aos das comissões de controle de infecção intra-hospitalar. Devido à gravidade das doenças existentes e do grau de dependência física e mental em que se encontram, institucionalizados estão propensos a apresentar infecções, principalmente no tegumento cutâneo, trato urinário e aparelho respiratório. Aconselha-se a promoção de cuidados preventivos para infecções nesses três locais (Yoshikawa, 1989; Bentley et al., 2001; Yoshikawa, 2002; Villas-Boas e Ruiz, 2004; Boockvar et al., 2005; Ramroth et al., 2005).

O envelhecimento da pele provoca alterações, principalmente em áreas expostas à radiação solar, que a torna mais fina, seca e propensa para a formação de hematomas e soluções de continuidade, notadamente em antebraços e mãos. Recomenda-se o uso regular de sabonetes e cremes hidratantes nesses locais, como prevenção de lesões, que muitas vezes são interpretadas por familiares como sinais de abuso e maus tratos. Dementados apresentam, com frequência, quadros comportamentais que podem gerar traumas e lesões cutâneas com infecções secundárias. Essas lesões devem ser avaliadas e, se necessário, receberem não apenas tratamento local, como sistêmico. Igualmente é comum o encontro de doenças coadjuvantes à demência senil que provoquem estase e/ou lesões venosas em membros inferiores e favoreçam a formação de erisipelas ou de tromboflebites associadas. Essas circunstâncias exigem cuidados locais e o uso de antibioticoterapia sistêmica, muitas vezes de forma profilática. Constante é a observação da ocorrência de posições semifetais em estágios avançados da demência senil. Isso favorece a formação ou o encontro à admissão asilar de úlceras de pressão. Cuidados locais com as preexistentes ou medidas como mudança periódica de posições viciosas que as favoreçam, podem impedir circunstâncias de sofrimento e reduzir o risco de bacteremias e sepse, nesses asilados. Recomenda-se ainda a vacinação antitetânica, devido ao fato de que as lesões tegumentares, descritas acima, serem potenciais portas de entrada para o Clostridium tetani (Yoshikawa, 1989; Webster, 2001; Yoshikawa, 2002; Strausbaugh et al., 2003; Laube, 2004; Theodosa, 2004).

Infecções respiratórias disseminam-se facilmente em comunidades fechadas, como as instituições asilares. Pode-se minimizar esse risco com o emprego regular de vacinas antipneumocócicas e antiinfluenzas, tanto em asilados, como no corpo de funcionários do local. Ocorre, porém, que demências em estágio final associam-se constantemente a broncopneumonias aspirativas recorrentes. Essa relação decorre de quadros de imobilismo crônico e do uso de sondas e cateteres. O agente causador é, habitualmente, a flora bacteriana mista (agentes Gram-negativos, anaeróbios e estafilococos), muitas vezes multirresistente a antibióticos usuais. Geram-se, assim, circunstâncias propícias à sepse e à morte desses dementados. Estima-se que, enquanto idosos sem demência senil apresentem incidência de aproximadamente 90% de sobrevida após 180 dias da hospitalização por pneumonia, dementados em estado avançado têm a sobrevida reduzida para algo em torno de 50% após o mesmo período (Morrison e Siu, 2000; Bentley et al., 2001; Van der Steen et al., 2002; Yoshikawa, 2002; Strausbaugh et al., 2003; Bardenheier et al., 2004; Furman et al., 2004; Boockvar et al., 2005; Janssens, 2005).

Deve-se ainda observar que o diagnóstico de tuberculose em idosos, dementados ou não, é pouco lembrado. Frequente em comunidades fechadas como asilos, tem-se observado aumento no número de casos nessa faixa etária e maior mortalidade devido ao percentual de casos diagnosticados em estágios mais avançados da doença (Chaimowicz, 2001; Ijaz et al., 2002; Strausbaugh et al., 2003).

 

Desnutrição

 

Deficiências nutricionais, permanente ou transitoriamente, ocorrem entre 30% a 80% dos idosos asilados. Doenças crônicas e/ou graves alteram as necessidades orgânicas de proteínas e de calorias e podem estar acompanhadas de inapetência, provocadas por elas mesmas ou devido a medicamentos e por barreiras à alimentação, como ausência de auxílio para oferecer as refeições, falta de dentes, dieta de consistência ruim para a deglutição ou monótona ao paladar. Revisão da necessidade de fármacos, como anti-inflamatórios não-hormonais e digitálicos soluciona ou minimiza, em muitos casos, quadros de anorexia. Avaliações odontológicas, fonoaudiológicas e nutricionais periódicas contribuem para a prevenção da desnutrição. Indica-se o uso de sondas enterais, quando outras medidas, citadas anteriormente, não forem eficazes ou o paciente não apresente condições de ser alimentado por via oral e esteja desenvolvendo quadro de desnutrição progressiva (Kamel et al., 2000; Sullivan, 2000; Alibhai et al., 2005).

Quadros depressivos, nem sempre de fácil diagnóstico quando associados à demência senil, podem, em muitos asilados, justificar baixa ingesta alimentar. O mesmo ocorre em dementados com outros distúrbios comportamentais, como agitação e irritabilidade. Períodos de perambulação e/ou de extrema atividade física associam aumento do consumo energético à baixa oferta calórica nessas alterações comportamentais. A perda de peso aumenta com a gravidade e a progressão da demência senil, particularmente na doença de Alzheimer, servindo como preditora de mortalidade para esses casos (Berkhout et al., 1998; White et al., 1998; Forlenza, 2000; White et al., 2004).

 

Incontinência urinária

 

Causa frequente de asilamento e de alta prevalência em idosos institucionalizados, apresenta significativa associação com quadros demenciais. Estima-se que esta prevalência chegue, aos 85 anos de idade, em torno de 43% nas mulheres e de 24% nos homens. O percentual aproxima-se a 84% quando são analisados apenas octogenários asilados. Incontinência urinária pode provocar ou agravar insuficiência renal, infecções urinárias, litíase renal, hematúria, lesões cutâneas, quedas e fraturas. A mortalidade, mesmo em idosos vivendo em comunidade e com graus graves de incontinência urinária, é de mais de 50% em aproximadamente 3,5 anos de evolução do quadro (Hellstorm et al., 1990; Nakanishi et al., 1999; Sthothers e Fenster, 2002; Durrant e Snape, 2003).

Nem sempre irreversível, deve-se estar atento a fatores controláveis como delírio, medicamentos tipo diuréticos ou hipnóticos, atrofia vulvar, fecaloma e diabetes melito. Aconselha-se também a avaliação do local onde se encontra o idoso incontinente, para que sejam retirados obstáculos que dificultem sua ida com facilidade ao sanitário. Observa-se ainda e com frequência incontinência urinária associada a quadros como parkinsonismo ou demência com corpúsculos difusos de Lewy, seqüelas de acidentes vasculares cerebrais ou demências vasculares e hidrocefalia de pressão liquórica normal ou intermitente, situações que, em muitos casos, são passíveis de tratamento e/ou processos de reabilitação miccional (Fowler, 1999; Sthothers e Fenster, 2002; Durrant e Snape, 2003).

 

35.4. Distúrbios do comportamento

 

Percentuais entre 40% e 90% de dementados asilados apresentam períodos de depressão, psicose, agressividade ou delírio. Torna-se, assim, comum a prescrição de psicofármacos, com as reações adversas e complicações inerentes ao seu uso. Embora não se relacione ao enfoque principal do presente artigo, a referência a que esses distúrbios são passíveis de tratamento não necessariamente medicamentoso. Deve-se considerar essa opção pela necessidade de mais estudos controlados sobre o uso de psicofármacos em distúrbios comportamentais em dementados (Gorzoni, 1995; Forlenza, 2000; MacDonald et al., 2002; Tamai, 2002; Cummings, 2004).

 

35.5. Imobilidade

 

Quadros demenciais em estágios mais avançados e psicofármacos são causas significativas de imobilidade em asilados. Circunstâncias que provocam dor, incontinência urinária, distúrbios da força muscular, alterações do equilíbrio e rigidez articular contribuem para sua instalação e progressão. Equipes de reabilitação e de enfermagem adequadamente motivadas e treinadas para a detecção de quadros de imobilidade podem, com boas chances de sucesso, reduzir sua freqüência e impedir quadros decorrentes, como úlceras de pressão e eventos tromboembólicos (MacLennae et al., 1987; Campbell et al., 1990; Berkout et al., 1998; Gordon et al., 1999; Carvalho e Coutinho, 2002; Durrant e Snape, 2003; Toulotte et al., 2003).

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